(Fotografia publicada com destaque na revista zOOm - fotografia prática, edição n.º 3)
O Parque Nacional da Peneda-Gerês - reserva mundial da biosfera -, é detentor de zonas de elevado valor científico que são desconhecidas do público em geral. A Lagoa do Marinho é uma dessas zonas.
Embora sejam poucas as formações ditas glaciárias em Portugal, em 1895, Paul Choffat, referiu-se à hipótese de uma glaciação quaternária na Serra do Gerês, mais concretamente, ocorrida no período plistocénico - há cerca de 1.8 Ma a 10.000 anos. Todavia, não apresentou qualquer prova de vestígios dessas glaciações. Segundo este geólogo, terá sido Ricardo Jorge (JORGE 1888, 1891) o primeiro a equacionar a hipótese de terem existido glaciares na Serra do Gerês, a partir de aluviões colocados a descoberto pela abertura de uma estrada, supostamente, a que passa pelas Caldas do Gerês e se dirige para o rio Homem.
Os vestígios de processos glaciários na Serra do Gerês foram desde então, alvo de pesquisas e aceites como tais, por alguns investigadores em geociências, como por exemplo, Ernest Fleury (FLEURY, E. 1916) e Orlando Ribeiro (RIBEIRO, O. 1955), entre outros. Contudo, somente Aristides de Amorim Girão (GIRÃO, A. 1958) detalhou a localização de alguns desses vestígios glaciares, dos quais merece aqui especial ênfase os da zona de Cocões de Concelinho - Lagoa do Marinho.
Por motivos de uma menor divulgação e/ou acesso difícil, a zona onde se situa esta lagoa de origem glaciar é pouco conhecida do público, e da aplicação de geo-referenciação Google Maps®. Os vestígios de processos glaciários aqui identificados - vales com perfil em U, moreias, superfícies graníticas polidas com estrias, depósitos e circos glaciários -, são de extrema importância científica, na medida que surgem a uma altitude mais baixa que noutras regiões e em bom estado de preservação.
Contrariamente ao que o nome possa sugerir, a Lagoa do Marinho não é uma lagoa, mas sim duas: uma de cota superior (provavelmente a que deu nome ao local) que mantém ao longo das estações do ano a sua forma original inalterada, e outra de cota inferior e de menor dimensão que no auge do verão praticamente se extingue - a fotografia e os dados aqui apresentados, referem-se à lagoa de cota superior.
Situada no sector sudeste da Serra do Gerês, dentro da bacia de drenagem do ribeiro do Couce (afluente do rio Cabril), a Lagoa do Marinho é uma área endorreica - o escoamento das águas faz-se através de uma depressão interior, sem saída para o mar.
Parte da sua área envolvente está ocupada por uma moreia terminal em forma de arco. Para os menos conhecedores da matéria, as moreias são um amontoado de sedimentos com diversas dimensões, que foram transportados e acumulados pelo glaciar à frente e aos lados da língua glaciar, até quando e onde este se fundiu. Quando observadas ao pormenor, permitem a reconstituição do movimento glaciar, e são um indicador fundamental dos limites de máxima extensão da glaciação. Significa isto que, o limite de um dos glaciares que ocupou a Serra do Gerês, foi a Lagoa do Marinho.
Com uma orientação nne-ssw, esta é ocupada por uma turfeira com cerca de 100 metros de comprimento por 50 metros de largura. A título de curiosidade, as turfeiras são habitats naturais de elevado valor biológico que ocorrem em biótopos permanentemente encharcados. São consideradas um dos maiores reservatórios de carbono do planeta, e a acumulação do CO2 é vista como uma das alternativas para atenuar o aquecimento global - na sua maioria são atapetadas por musgos (género Sphagnum), onde coexistem também bolas de algodão (Eriophorum Angustifoliumas), Urzes (Calluna Vulgaris), Tojos (Ulex Minor) e plantas insectívoras como a Orvalhinha (Drosera Rotundifolia).
Topograficamente, esta lagoa posiciona-se dentro de uma área de relevo aplanado sobre um substracto granítico a cerca de 1200 metros de altitude. A esta altitude, ainda que relativamente baixa, e na presença de uma maior concentração de raios ultra-violetas e de uma menor poluição atmosférica, o azul do céu já é dominante - tal poderá passar despercebido ao olho humano, mas não à câmara fotográfica.
Para os amantes da natureza, vale a pena visitar a Lagoa do Marinho em Novembro, altura em que as bolas de algodão da turfeira deverão estar em flor. No entanto, é conveniente que esteja em boa forma física, dado que terá de percorrer a pé (ida-e-volta) cerca de 8 km, metade dos quais a subir.
Por último, resta lembrar que o Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG), está entre os 21 finalistas do concurso “As 7 Maravilhas Naturais de Portugal”, cuja votação decorre até ao próximo dia 7 de Setembro, em: www.7maravilhas.sapo.pt/#/pt/votacao

