Domingo, 31 de Outubro de 2010

Assembleia de Pequenotes

(Fotografia publicada nas revistas NS' - Notícias Sábado n.º 183, O Mundo da Fotografia Digital n.º 66, Super Foto Digital n.º 111, e DP Arte Fotográfica n.º 15)






















Desde que embarquei no mundo da fotografia, sempre me chamou a atenção o comportamento das pessoas no seu dia-a-dia. Na sua maioria, concentram-se na leitura dos jornais, em conversas politizadas com o vizinho, ou simplesmente passam horas no café a olhar o próprio umbigo. Poucos são os que se dispõem a prestar atenção a um momento que se apresenta num simples virar de esquina. É normal, nada daquilo é novidade, tudo é familiar, e como tal, indigno de um sentir mais profundo. 
No lado oposto deste (des)sentir, ocorre exactamente o inverso: quando estamos num lugar novo, perante culturas e paisagens bem distintas das nossas, a tendência é observar tudo com uma exuberância exagerada - o diferente atrai, o exótico prende os sentidos, o que é natural e perfeitamente compreensível.
É neste ponto que reside um dos grandes, talvez o maior, desafio do fotógrafo de viagens. Quando tudo parece ser um bom motivo para um novo click, é fácil cair na tentação (e erro!) do registo do desconhecido, da novidade, da banalidade...
É o caso dos motivos em que fotografamos mais pela emoção de estarmos num local diferente, estranho às nossas experiências anteriores, do que pelo valor estético ou narrativo que os registos encerram em si.
   
Quando realizei a fotografia em epígrafe, caminhava por ruelas de uma aldeia de Cabo Verde - não divulgada nos prospectos de turismo por razões óbvias -, quando um grupo de adolescentes reunidos em torno de paus e pedras num jogo qualquer, prendeu o meu sentir. Agachei-me no meio da estrada (felizmente, o trânsito era insignificante), enquadrei o grupo e aguardei até que um deles alertasse os restantes. Quando olharam para aferir o que se passava em seu redor, fiz o meu pedaço de tempo capturando as expressões de curiosidade de alguns.
É assim que evito a superficialidade do mero registo!
CR/de