Domingo, 20 de Março de 2011

O Afiador de Galhas

(Fotografia publicada na revista O Mundo da Fotografia Digital, edição n.º 70)



Conhecidas de muitos, as Chegas de Bois encerram faces (e facetas) desconhecidas de muitos mais - o Afiador de Galhas é apenas uma delas.

Desengane-se quem julga se tratar de uma mera intervenção cosmética aos cornos do boi. É sim, um verdadeiro trabalho de artesão, no qual obter uma galha devidamente pontuda sem fragilizar a rusticidade que as presas de um boi de combates exige, é o segredo desta arte intimamente ligada às lutas de bois de cobrição.

António Alves Duarte, mais conhecido como o "Toninho dos campeões", conta com mais de três décadas como criador e afiador de galhas de bois. Aficionado pelas Chegas de Bois, divide o seu tempo entre a profissão de fiscal de obras e a paixão pelos bois de lutas. “Só se dedica a isto quem tem paixão pelos bois”, afirma António orgulhoso dos seus três campeões. Dois mil e dez foi um ano particularmente feliz para este criador; os seus exemplares venceram tudo o que havia para vencer, e são os principais favoritos para as Chegas de 2011.

Na véspera de cada luta, os criadores de Bois de Chegas acordam se se afiam as pontas, se podem introduzir pontas de aço, ou até enxerto de pontas de cornos, quando o animal se apresenta mal servido delas. Questionado à cerca da razão de ser deste velho costume levado a cabo apenas algumas horas ou minutos antes do combate, António Duarte responde, dizendo que “é para picar melhor, para enervar o outro boi, para termos uma boa chega”.

É na azáfama dos meses quentes do ano, quando o apelo à cultura tradicional comunitária é mais forte, e quando a família Montalegrense vinda de além-fronteiras, migrada ou residente, pode finalmente se dar ao tempo do reencontro e percorrer os caminhos das Chegas, que António Duarte não tem mãos a medir pelas freguesias do concelho. Durante este périplo comunitário António Duarte afia as galhas dos bois dos amigos, dos bois dos vizinhos, e até dos bois opositores se tal for necessário. Gratuitamente, fá-lo com o mesmo afinco e apreço que dedica aos seus próprios animais; “nós aqui, não temos dessas rivalidades, o que queremos é uma boa chega, e no fim, quer o boi ganhe ou perca, vamos todos merendar”, diz António Duarte com um ligeiro sorriso.

Exímio no manuseamento da lima como poucos, apoiando-se por vezes nas barras de ferro do curral, António lá vai com a outra mão afiando as galhas do boi num verdadeiro exercício físico de corar os mais jovens. Habilmente, retira as últimas farpas recorrendo a movimentos dignos de registo.



Se há terras que há muito sucumbiram a novos estilos de vida, importados e impostos por força de uma economia cada vez mais global e globalizante, outras há que juntam um crisol de tradições em nome de uma identidade que se quer viva e bem defendida.

Afinal, são gentes a norte do norte de Portugal!

CR/de