Domingo, 3 de Abril de 2011

Matança do Porco no Alto Barroso

(Fotografia publicada na revista Super Foto Digital, edição n.º 160)



Dizem que a tradição já não é o que era. É um facto. Contudo, terras há onde a tradição, aparentemente, ainda é o que era. No Alto Barroso, em Trás-os-Montes, é possível encontrar aldeias que os filhos da terra ainda fazem questão na continuidade dos seus usos e costumes.

Na sequência de fotografias aqui apresentadas encontrará duas realidades das festas da matança. O primeiro conjunto de imagens retrata uma matança dita “forte” pelos aldeões de Morgade, freguesia do concelho de Montalegre, situada na Serra do Barroso, em Trás-os-Montes. Número de convivas que ultrapassa a centena de pessoas, notoriedade de alguns dos presentes, elevado número de abates, presença de tocadores, longa duração, e despesa realizada na ementa da festa. Estas festas tem como protagonistas famílias em ascensão sócio-económica (“novos-ricos” oriundos de casas humildes de antigos camponeses), tendo como primordial objectivo exibir o seu novo estatuto social, não só na comunidade aldeã, como fora dos limites sociais desta.

A segunda sequência de fotografias retrata a denominada “pequena-média” matança. Nestas festas mais humildes estão presentes os membros da família, vizinhos e amigos, num total que geralmente não ultrapassa as duas dezenas de pessoas. São abatidos um a seis suínos, predomina um forte sentido de entreajuda com retribuições mútuas de dias de trabalho, e consolidação dos laços sociais com os parentes mais próximos. Para além do habitual auto-sustento, estas matanças passaram a representar uma importante fonte de rendimento extra para o agregado familiar - a popular Feira do Fumeiro e Presunto de Barroso, nascida nos anos noventa, não é alheia a esta nova motivação de carácter mais comercial da matança.




Em qualquer dos casos, uma realidade distinta das antigas festas da matança no Alto Barroso, promovidas pelos senhorios das “casas grandes”.
Outrora Luís Vaz de Camões dissera: “Mudam-se os tempos mudam-se as vontades”; agora, poder-se-á dizer que são festas de ontem ao sabor dos tempos de hoje!

CR/de