(Fotografia vencedora da rubrica "Olhares", revista O Mundo da Fotografia Digital, edição n.º 74)
Únicas na Europa, as Chegas de Bois opõem dois imponentes machos que facilmente ultrapassam a tonelada de peso. De “cornos infinitos” como Miguel Torga tão bem descreveu, defrontam-se apenas numa clara demonstração de força. Por vezes, estes combates prolongam-se por mais de meia-hora, na maioria das vezes, basta alguns minutos até que um recue para o outro vencer.
Outrora realizadas em pleno campo aberto de pasto natural, Lameiro, estas lutas de gigantes de raça Barrosã era como uma disputa entre aldeias vizinhas. De tempos a tempos, o Boi era reclamado pelo povo a medir forças com os machos de outras aldeias. Verdadeira bandeira do comunitarismo, o “Boi do Povo” era então por todos tratado, recaindo sobre ele a missão de defender a honra da sua aldeia.
Longe vão esses tempos em que esta raça, apurada e delimitada pelo isolamento geográfico então presente, abundava em número pelas paisagens do Barroso. Com o incremento da cultura da batata comercial a partir dos anos 30 - com a consequente passagem ao cultivo de uma boa parte dos Lameiros destinados aos bovinos -, e a reflorestação dos baldios a partir dos anos 40 pelos serviços florestais do Estado, ditavam o início de um período menos auspicioso para a raça Barrosã. A tomada dos melhores Lameiros pelas águas das barragens hidroeléctricas construídas entre meados dos anos 40 a finais dos anos 60, e o abandono maciço das terras em busca de melhores condições de vida além-fronteiras, reforçavam o declínio desta raça autóctone.
Por forma a recuperar este património genético e cultural do Barroso, surge em 1999 por iniciativa de Fernando Moura e Nuno Morais, a Associação Etnográfica “O Boi do Povo”. Com o apoio municipal da Capital do Barroso, esta associação promove anualmente o campeonato de Chegas de Bois raça Barrosã. Durante os meses de Junho a Agosto são atribuídos prémios monetários de igual valor, quer aos vencedores, quer aos vencidos deste campeonato, como forma de incentivo à criação da raça Barrosã.
Deste modo, o campeonato de Chegas de Bois raça Barrosã contribui no reinvento da tradição, estabelecendo habilmente uma ponte entre o passado, o “comum da comunidade”, e as novas práticas éticas, económicas e sociais.
Só assim, nos é possível compreender a forte adesão a este espectáculo rei por terras do Barroso!
Só assim, nos é possível compreender a forte adesão a este espectáculo rei por terras do Barroso!
CR/de

