(Fotografias publicadas nas revistas Photo Magazine Brasil n.º 40, O Mundo da Fotografia Digital n.º 79, e Super Foto Digital n.º 160 e n.º 170)
Há muito tempo que o isolamento geográfico forjou a identidade do Alto Barroso. É uma região que os filhos da terra, residentes ou não, fazem questão na continuidade dos seus costumes, de que é exemplo a festa da matança.
Apesar do surgimento dos sistemas de frio na década de oitenta, poucas foram as alterações de ordem tecnológica introduzidas no processo da matança do porco no Alto Barroso, desde o início do século XX. Se excluí-mos o recurso a alguns utensílios contemporâneos, é possível aferir In-loco a um ritual de gestos e diferentes práticas ancestrais: o abate com faca, a desmancha tradicional, o recurso à salga, a secagem, a defumação, e em determinadas aldeias da Serra do Barroso até a conservação por meio da gordura. A manutenção nos dias de hoje de tais métodos centenários de transformação e conservação da carne com vista ao seu consumo, quando acessíveis outros meios mais eficientes e, civilizados, evidencia uma luta imaginária por um património identitário outrora rico e forte.
No "filme fotográfico" aqui apresentado encontrará as duas realidades das festas da matança. O primeiro conjunto de imagens retrata uma matança dita “forte” pelos aldeões de Morgade, freguesia do concelho de Montalegre, situada na Serra do Barroso, em Trás-os-Montes. Número de convivas que ultrapassa a centena de pessoas, notoriedade de alguns dos presentes, elevado número de abates, longa duração, e despesa realizada na ementa da festa. Estas festas tem como protagonistas famílias em ascensão sócio-económica (“novos-ricos” oriundos de casas humildes de antigos camponeses), tendo como primordial objectivo exibir o seu novo estatuto social, não só na comunidade aldeã, como fora dos limites desta.
A segunda sequência de fotografias retrata a denominada “pequena-média” matança. Nestas festas mais humildes estão presentes os membros da família, vizinhos e amigos, num total que geralmente não ultrapassa as duas dezenas de pessoas. São abatidos um a seis suínos, predomina um forte sentido de entreajuda com retribuições mútuas de dias de trabalho, e consolidação dos laços sociais com os parentes mais próximos. Para além do habitual auto-sustento, estas matanças passaram a representar uma importante fonte de rendimento extra para o agregado familiar - a popular Feira do Fumeiro e Presunto de Barroso, nascida nos anos noventa, não é alheia a esta nova motivação de carácter mais comercial da matança.
Em qualquer dos casos, poder-se-á dizer que são ceias de ontem ao sabor dos tempos de hoje!
A festa da matança, tal como se apresenta hoje no Alto Barroso, é uma festividade relativamente recente. A tradicional matança do porco em Portugal Continental era uma pequena festa familiar, ou uma refeição de trabalho no dia da matança, Jantar da Matança, à base de sangue e fígado do porco - partes perecíveis do animal não sujeitas à salga nem à defumação. Mas em certas aldeias do Alto Barroso a tradicional festa da matança, Ceia da Matança, tinha lugar somente uma semana após a desmancha do porco. Distinta das outras refeições da matança, era apelidada de “Ceia dos ossos da suão”, por ser à base da coluna vertebral do porco, entretanto colocada na salgadeira. Contrariamente à imagem transmitida pelas actuais ceias da abundância no Barroso, antigamente, estas ocorriam exclusivamente em casas de famílias abastadas, denominadas “casas grandes”. Ao longo do tempo a Ceia da Matança perde expressão, e a refeição de trabalho no dia da matança ganha dimensão e significado festivo de maior relevo. Sobreviveriam as últimas que, posteriormente, já se apresentavam em moldes similares às actuais Ceias de Barroso. Esta mutação da festa terá iniciado em meados dos anos sessenta e, a partir dos anos setenta, dá-se a institucionalização de uma festa diferente das suas antecedentes: onerosa, elevado número de convidados, presença de tocadores, forte cariz social extravasando as fronteiras da aldeia, refeição não limitada unicamente às carnes de porco e seus derivados, e até motivo de disputa entre casas-famílias.
Na base do nascimento desta nova moldura festiva no Alto Barroso, esteve o êxodo rural por via da emigração e migração verificada na década de sessenta, e as transformações sociais e económicas ocorridas com o pós-25 de Abril de 1974. Contudo, a nova festa só foi possível em virtude da melhoria das condições de vida registada nas últimas décadas pela camada social mais empobrecida. Dos vários factores que contribuíram para tal, a entrada de capital monetário na esfera aldeã proveniente das remessas de dinheiro enviadas pelos filhos da terra, entretanto ausentes, é o mais relevante. Só a partir de então é que a maioria das famílias pobres passou a criar e a matar o seu próprio porco. Daí que se compreenda que sejam hoje estas famílias, em particular os seus descendentes, os que mais investem no contraste entre o presente, o da abundância, e o passado, o da privação.
O aparecimento da arca congeladora no início dos anos oitenta e, mais recentemente, a utilização do maçarico de gás e do compressor de água, não colocaram em causa as técnicas tradicionais de abate e conservação. No entanto, verificaram-se mudanças no modo de criação dos porcos; nomeadamente, o abandono da deambulação dos animais pelos caminhos das aldeias, a proliferação do porco branco (Large White) em detrimento do porco Bísaro (raça autóctone), e a introdução das rações na sua dieta alimentar por forma a itensificar a produção de carne.
Nestas festas o serviço à mesa é levado a cabo pelas mulheres que nunca chegarão a sentar-se à mesma. Só as mulheres exteriores à aldeia, convidadas, participam na ceia enquanto comensais. As mulheres da aldeia presentes, parentes e ajudantes da dona da casa, mantêm-se de pé na cozinha até ao término da refeição. Só então poderão degustar o manjar.
Nestas festas o serviço à mesa é levado a cabo pelas mulheres que nunca chegarão a sentar-se à mesma. Só as mulheres exteriores à aldeia, convidadas, participam na ceia enquanto comensais. As mulheres da aldeia presentes, parentes e ajudantes da dona da casa, mantêm-se de pé na cozinha até ao término da refeição. Só então poderão degustar o manjar.
Cozinha-se sempre em quantidade superior à consumida por forma a distribuir o excedente aos que ajudaram na matança e aos que não puderam estar presentes, ou que não foi possível convidar. Participam um a dois representantes de cada casa, próximos da família anfitriã. A refeição ocorre na sala de jantar, numa garagem livre, ou na própria cozinha, quando a casa é pequena e não dispõem de sala de jantar. A mesa é disposta em rectângulo aberto, decorada com toalhas guardadas para a ocasião. O vinho, o pão, os petiscos, e os pratos de comida, são colocados em intervalos regulares por forma a ficarem acessíveis a todos, independentemente, do estatuto de cada um dos presentes - prevalece aqui o princípio do igualitarismo.
Quer nas grandes, quer nas pequenas-médias festas da matança, os cantares ao desafio são uma constante.
Tempos de mudança
Pese embora o inegável papel da matança do porco na economia doméstica do Alto Barroso, a mudança do quadro cerimonial da festa é, não só, vista como uma defesa de um velho modo de ser e fazer, como representa também um novo palco de múltiplos interesses e grupos sociais. Assistimos assim à reprodução aparente da tradição, articulando o comum da comunidade de um mesmo espaço social periférico, e as novas demandas económicas, políticas e sociais.
No "filme fotográfico" aqui apresentado encontrará as duas realidades das festas da matança. O primeiro conjunto de imagens retrata uma matança dita “forte” pelos aldeões de Morgade, freguesia do concelho de Montalegre, situada na Serra do Barroso, em Trás-os-Montes. Número de convivas que ultrapassa a centena de pessoas, notoriedade de alguns dos presentes, elevado número de abates, longa duração, e despesa realizada na ementa da festa. Estas festas tem como protagonistas famílias em ascensão sócio-económica (“novos-ricos” oriundos de casas humildes de antigos camponeses), tendo como primordial objectivo exibir o seu novo estatuto social, não só na comunidade aldeã, como fora dos limites desta.
A segunda sequência de fotografias retrata a denominada “pequena-média” matança. Nestas festas mais humildes estão presentes os membros da família, vizinhos e amigos, num total que geralmente não ultrapassa as duas dezenas de pessoas. São abatidos um a seis suínos, predomina um forte sentido de entreajuda com retribuições mútuas de dias de trabalho, e consolidação dos laços sociais com os parentes mais próximos. Para além do habitual auto-sustento, estas matanças passaram a representar uma importante fonte de rendimento extra para o agregado familiar - a popular Feira do Fumeiro e Presunto de Barroso, nascida nos anos noventa, não é alheia a esta nova motivação de carácter mais comercial da matança.
Em qualquer dos casos, poder-se-á dizer que são ceias de ontem ao sabor dos tempos de hoje!
CR/de










